Alexandre Haubrich, jornalista, doutor em Comunicação e diretor geral do SindJoRS
Se alguém te fala que vai votar no candidato que defende direitos trabalhistas é fácil adivinhar qual deles ela escolheu? E se alguém diz que vai votar no candidato que defende a democracia e a liberdade de imprensa, e o respeito ao jornalismo, tu consegues adivinhar?
A decisão que sairá das urnas no próximo domingo é, para nós, jornalistas, um divisor de águas. Primeiro porque, como parte da classe trabalhadora, somos afetados diretamente por avanços ou retrocessos nos direitos trabalhistas. Segundo porque, pela especificidade do nosso trabalho, somos alvo preferencial de quem não respeita a democracia.
Em 2017, pouco após o golpe, uma das agendas prioritárias do governo Temer foi a desregulação do trabalho, com a retirada ou descaracterização, direta ou indireta, de uma série de direitos antes garantidos aos trabalhadores e trabalhadoras. A partir daí, nesses quase dez anos, o que vivemos foi o avanço das terceirizações, da pejotização e do negociado sobre o legislado, relativizando direitos e precarizando as condições de trabalho e de vida dos trabalhadores.
Para os jornalistas, a realidade da pejotização veio como um tsunami. O número de trabalhadores contratados por fora da CLT disparou, com os patrões utilizando a figura da “pessoa jurídica” para maquiar o vínculo empregatício e oferecer menos direitos. Soma-se a isso os baixos salários e a ampla utilização da escala 6×1 na categoria e temos um cenário de profunda precarização, o que inclusive leva muitos jornalistas a arrumarem outros “bicos” ou abandonarem a área.
São esses desafios que estão postos para o próximo período, e o resultado das urnas poderá agravar ou abrir caminhos para reverter esse cenário. Especialmente se considerarmos a composição do Congresso eleito, se tivermos um presidente que relativiza os direitos trabalhistas em prol das empresas e da superexploração, o futuro é tenebroso. Mesmo a vitória com o fim da escala 6×1 fica ameaçada, já que um dos projetos na mesa é o pagamento por hora trabalhada.
Há, ainda, uma grande quantidade de jornalistas que trabalham como MEI e realmente o são, sem que isso configure uma burla. Para esses, também existe preocupação: os ganhos do último período, que incluem, mais recentemente, aumento do teto, perdão de dívidas e a possibilidade de um apoio federal para investimentos, podem ser congelados por quatro anos.
É preciso falar, ainda, dos colegas que estão ou querem ingressar no serviço público. Os concursos, que voltaram nos últimos quatro anos, podem desaparecer novamente. Para quem já é servidor público, há ainda a ameaça de uma reforma administrativa que ataque até mesmo a estabilidade.
Somos, como jornalistas, parte da classe trabalhadora. Como tal, nos vemos afetados por cada direito geral conquistado ou retirado. Para além disso, a História mostra que governos que não gostam de direitos trabalhistas também não gostam de liberdade de expressão, de liberdade de imprensa e de jornalismo. Nesse sentido, somos alvo duplamente.
O momento, portanto, é grave, e exige de todos nós coragem para utilizar nossa capacidade de comunicação para informar a população sobre o que está em jogo. Exige de nós, também, no domingo, um voto que leve em conta que somos trabalhadores e trabalhadoras e que, dessa forma, nossos direitos precisam ser garantidos todos os dias, com luta, com informação crítica e com voto conectado com nosso lugar na sociedade.