No difícil e competitivo mercado jornalístico, não são de estórias que se faz uma história. É preciso muito mais. Não são muitos os homens de Imprensa que conseguem destacar-se na profissão, à ponto de entrar para a história. Um destes, definitivamente, fez história e, mais que isso, impunha respeito. A figura de estatura alta, traços germânicos, extremamente calmo em toda sua inesgotável energia, provocava admiração e respeito aonde quer que houvesse um aficionado ou uma roda de pilotos que estivesse a debater histórias e personagens do Automobilismo. Afinal, Elton Jaeger era uma lenda viva, testemunha participativa de uma era do Automobilismo na qual raça, elegância e romantismo se misturavam em doses certas. E – posto sua profissão –, descrevia, como poucos, detalhes e bastidores deste apaixonante esporte.

 

Porém, a partir de 2022, os assuntos envolvendo Elton Jaeger terão que envolver a palavra falecimento. Na noite de quinta-feira, 20 de janeiro, seu coração parou de bater. Com ele, foi-se o primeiro Jornalista gaúcho credenciado para cobrir provas de Fórmula 1 e o Salão do Automóvel de Frankfurt – evidente, um breve resumo entre tantas realizações junto ao Jornalismo automotivo.

 

Sabemos, a conquista do sucesso (em qualquer atividade), não cai do céu. Ele é duramente obtido com trabalho, talento e determinação. E isso, sem dúvida nenhuma, norteou a trajetória deste gaúcho que iniciou carreira como correspondente da Empresa Jornalística Caldas Junior (EJCJ) em Lajeado, entre os anos 50 e 60. Neste período, os motores roncavam apenas nos seus sonhos – suas matérias abrangiam assuntos diversos como Futebol, Agricultura, Economia e até mesmo, Editoria Policial.

 

O sonho de atuar junto ao setor de competições automobilísticas torna-se-ia realidade em 1969, quando o jornal Folha Esportiva – também da Caldas Junior –, abriu espaço para o esporte motorizado. Era o começo da história. Sempre atento à todos assuntos relacionados ao esporte motorizado, não demorou para que Elton tivesse sua primeira grande chance de emplacar na área que tanto o fascinava. Em 1971, assinou, pela primeira vez, o ‘caderno de Imprensa’ da F1, ao obter credenciamento para o Grande Prêmio da Argentina – que seria marcado pela primeira ocasião na qual dois brasileiros, Emerson Fittipaldi e seu irmão, Wilson, iriam dividir um ‘grid’ da principal categoria do Automobilismo pela primeira vez. A experiência – e, principalmente, a repercussão de seu trabalho – rendeu frutos. Ainda naquele ano, viajou à Europa para cobrir duas provas de F1. Neste meio tempo, acompanhou de perto o mais longo rali até então realizado em nosso país (Rallye da Integração Nacional).

 

Já no ano seguinte, não apenas registrou a inedita vitoria dos gaúchos Christiano Nygaard/Neri Reolon no difícil “Rally Porto Alegre-Piriapolis-Porto Alegre”, como igualmente acompanhou de perto todas as 14 provas da F1 daquela temporada. Além disso, presenciou a conquista do título mundial através do já citado Emerson Fittipaldi (Monza, Setembro de 1972), e, mais que isso, igualmente, proporcionou que o jornal ‘Folha da Tarde’ mancheteasse com exclusividade a inédita conquista do desporto nacional. Mas a tarefa, não foi fácil. Em 1972, jornais não tinham o aparelho ‘telefoto’ (internet? Nem em ficção cientifica se imaginava!). Então, logo que a prova terminou, Elton levou o fotografo Alceu Feijo – que o acompanhava na cobertura – até o aeroporto de Milão. De lá, Feijó embarcou para Zurich (Suiça). Os envelopes com fotos e filmes tinha, que chegar até Porto Alegre. Naquela cidade e, sob orientação de Elton, Feijó entregou o envelope para um passageiro com destino ao Rio de Janeiro. Ao descer, este cidadão foi recebido por um correspondente da sucursal da ECJC na ‘cidade maravilhosa’ e, imediatamente, o pacote ‘desceu’ até P. Alegre. Em resumo: com a vantagem do fuso horário de cinco horas, a Folha da Tarde pode exibir, em primeira mão, a conquista de Fittipaldi.

 

Com esse ‘furo’ de reportagem, Elton Jaeger entrou para a categoria dos grandes Jornalistas da área e, como prêmio, passou todo o ano de 73 como correspondente de Formula 1 na Europa, morando em Londres.

 

A partir de 1984, com a extinção do jornal ‘F. Tarde’, Elton imediatamente recebeu convite para atuar no Jornal do Comércio. Na época, sua bagagem profissional era digna de admiração e reverência – cobertura de aproximadamente 100 grandes prêmios, 12 salões internacionais de Automovel (Europa e Estados Unidos), incontáveis participações em provas nacionais de Automobilismo – além de atuação como correspondente RGS para a revista Auto Esporte (SP) entre 1971 e 1979 (também atuou de forma similar, em 1986, para a revista Quatro Rodas). Pelas paginas da F. Tarde e, posteriormente, do J. do Comércio, nomes até reverenciados pelas conquistas tiveram registro nos jornais gaúchos: Nelson Piquet, Ayrton Senna, Chico Serra, Mauricio Gugelmin, Roberto Moreno, Christian Fittipaldi, Rubens Barrichello, Felipe Massa – todos estes tiveram suas carreiras acompanhadas por Elton, desde a época na qual eram meninos entusiasmados que aceleravam seus karts nas pistas de Tarumã, Interlagos, Brasília e Chapecó. E, óbvio, pilotos gaúchos também tiveram suas carreiras devidamente registradas, o mesmo acontecendo com o nascimento de categorias como Formula Ford, Stock Car, Formula Truck, Fiat Turismo e tantas outras. E tudo porque Elton – que se aposentou das redações físicas ao final de 1999 –, sempre soube que, para um homem de Imprensa, é preciso muito mais do que ‘estórias’. E ele, felizmente, escreveu também uma bela história. Uma história que hoje tentamos contar, visando reverenciar um verdadeiro mestre do Jornalismo Estadual.

 

Pesquisa & texto: Jornalista Paulo McCoy Lava | Museu do Automobilismo Brasileiro (Passo Fundo, RS)

Jornalismo de Competição | Pauta: Falecimento / Elton Jaeger (1937/2022)