Em um momento de debate sobre os rumos do país, o Outubro Rosa convida à reflexão sobre a importância do SUS para transformar prevenção em cuidado e direitos em realidade.
Outubro é o mês de refletir sobre prevenção, diagnóstico precoce e tratamento do câncer de mama. Mas, para além dos laços cor-de-rosa, existe uma pergunta que precisa ser feita: o que seria da saúde das mulheres brasileiras sem o Sistema Único de Saúde?
A resposta ajuda a compreender o papel de um dos maiores sistemas públicos universais de saúde do mundo. Nascido da Reforma Sanitária e consagrado pela Constituição de 1988, o SUS transformou a saúde em direito de cidadania. Em um cenário internacional marcado por sistemas condicionados à renda ou ao vínculo empregatício, o Brasil optou por construir uma rede pública universal, sustentada pelos princípios da universalidade, da integralidade e da equidade.
Não é uma conquista pequena. O Brasil é um dos poucos países a oferecer cobertura universal para uma população superior a 200 milhões de habitantes. O SUS realiza cerca de 2,8 bilhões de atendimentos por ano, conta com aproximadamente 3,5 milhões de profissionais e é a única porta de acesso à saúde para 76% da população brasileira.
Mas o SUS é mais do que números. Ele está na vacinação de crianças, no pré-natal, nos partos, na distribuição de medicamentos, nos transplantes e no cuidado com a população idosa. Muitos acreditam que não o utilizam porque têm planos privados. Na verdade, quase todos se beneficiam diariamente de suas ações — na vigilância epidemiológica, no controle sanitário, na doação de sangue, na prevenção de epidemias.
No caso das mulheres, essa presença acompanha quase todas as etapas da vida: da adolescência ao pré-natal; do parto à menopausa; da vacina contra o HPV à prevenção do câncer do colo do útero; da mamografia ao tratamento oncológico. O SUS é a rede que garante que a saúde não seja privilégio de quem pode pagar.
É nesse contexto que o Outubro Rosa ganha sentido mais profundo. Segundo o INCA, o câncer de mama é o tipo mais frequente entre as mulheres brasileiras, excluídos os tumores de pele não melanoma. Para o triênio 2026-2028, estima-se 78.610 novos casos por ano no país. Só em 2024, o SUS realizou cerca de 4,4 milhões de mamografias — 4 milhões para rastreamento de mulheres sem sintomas.
Cada exame é uma mulher que teve acesso ao diagnóstico. Uma família que recebeu orientação. Uma oportunidade de cura que talvez não existisse sem a rede pública. Por trás de cada mamografia há uma ampla estrutura construída ao longo de décadas: universidades federais, hospitais universitários, institutos de pesquisa, Fiocruz, INCA, profissionais da saúde e o próprio SUS.
Homens também têm mama.
O câncer de mama masculino representa cerca de 1% dos casos, mas é quase sempre esquecido nas campanhas. A consequência é grave: homens chegam mais tarde ao diagnóstico, enfrentam estigma e, muitas vezes, descobrem a doença em estágio avançado. A falta de informação mata — e mata também por preconceito.
Falar de Outubro Rosa é falar de saúde de todas as pessoas. Homens cis, homens trans, pessoas não binárias: todas podem adoecer e todas têm direito ao diagnóstico precoce e ao tratamento. O SUS atende a todos, sem distinção. Mas para que o cuidado chegue, a informação precisa circular. Um Outubro Rosa verdadeiramente universal não exclui ninguém.
O câncer de mama é uma pauta sindical.
Falar de prevenção sem falar de condições de trabalho é falar de saúde pela metade. Em uma categoria marcada pela precarização, pelas metas abusivas e pela multiplicidade de vínculos, o direito de se cuidar não está garantido para todas. Quantas jornalistas deixam de fazer uma mamografia por medo de represália, por não poder se ausentar do trabalho ou por não ter estabilidade para enfrentar um tratamento?
Defender o Outubro Rosa como pauta sindical significa cobrar dos empregadores e do poder público condições efetivas de prevenção, diagnóstico e tratamento. Significa lutar por jornadas que permitam o cuidado, por estabilidade para quem adoece e por um ambiente de trabalho que não adoeça. A saúde da trabalhadora não é um problema individual — é uma responsabilidade coletiva.
Ao discutir o tema, é impossível ignorar as desigualdades. O Conselho Nacional de Saúde destacou que o enfrentamento do câncer exige não apenas campanhas educativas, mas acesso efetivo ao diagnóstico e ao tratamento. O INCA dedicou parte das discussões deste ano às disparidades raciais, chamando atenção para os obstáculos enfrentados por mulheres negras no diagnóstico precoce.
Esses debates revelam que a luta contra o câncer não depende apenas da responsabilidade individual. Depende de políticas públicas fortes, permanentes e financiadas adequadamente. Estudos do Ipea apontam que o subfinanciamento histórico permanece como um dos maiores desafios para a consolidação do direito universal à saúde.
Quando se fala em defender o SUS, não se está defendendo apenas hospitais ou postos de saúde. Está-se defendendo o direito de uma trabalhadora fazer uma mamografia sem depender da própria renda. O direito de uma gestante receber pré-natal. O direito de uma paciente iniciar um tratamento contra o câncer sem escolher entre a própria vida e a sobrevivência financeira da família. Em última instância, defende-se uma ideia de sociedade em que a vida humana vale mais do que a capacidade de pagar por um tratamento.
Esse reconhecimento ultrapassa fronteiras e em julho de 2026 em visita ao Brasil, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou que o SUS é “um dos raríssimos sistemas de saúde no mundo que cobre toda a população”. Quando a principal autoridade da saúde global aponta o Brasil como referência, reconhece uma escolha civilizatória: a de afirmar que a saúde é um direito humano fundamental.
Num momento em que o mundo acompanha o avanço das desigualdades no acesso à saúde, a experiência brasileira demonstra que é possível construir uma política pública baseada na solidariedade e na cidadania, acima das barreiras econômicas.
Neste Outubro Rosa, é importante lembrar que a prevenção salva vidas, o diagnóstico precoce salva vidas e o tratamento salva vidas. Mas, para milhões de brasileiras — e também para homens que adoecem —, nada disso seria possível sem o SUS, sem a ciência pública e sem políticas públicas construídas coletivamente ao longo de gerações.
Conscientizar, defender e falar sobre o Outubro Rosa é defender a saúde de todas as pessoas. Defender a saúde de todas as pessoas é defender a ciência, o SUS e o direito humano fundamental à saúde.
Neste Outubro Rosa, o Sindicato de Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (SindJoRS) convida a categoria a somar-se a essa defesa. Cobrar mamografia na rede pública, acompanhar o orçamento da saúde, exigir políticas públicas permanentes e levar o debate para as redações e comunidades são formas concretas de transformar conscientização em direito. Porque nenhuma vida é salva sozinha — e nenhum direito se sustenta sem luta coletiva.
Texto: Mônica Cabañas Guimarães / Diretoria SindJoRS