Vista aérea parcial de Belém (acima), que será a sede da COP30. Foto: RAPHAEL LUZ / AGÊNCIA PARÁ
Cobertura da imprensa na conferência da ONU precisa ser planejada e engajada em defesa do meio ambiente
Cobrir um grande evento é sempre uma missão complexa para o jornalista. Principalmente se estiver trabalhando solo, característica comum hoje em dia, já que as empresas quase não investem em coberturas com pouco potencial comercial (ainda mais se estiver relacionado ao meio ambiente) ou também porque muitos colegas trabalham em veículos independentes ou como freelancers. A Conferência das Partes (COP30), organizada pelas Nações Unidas para debater as mudanças do clima e que ocorrerá em Belém (PA) de 10 a 21 de novembro, será ainda mais desafiante por sua grandiosidade.
A programação oficial vai ocorrer em um único centro, o Parque da Cidade, uma área de 500 mil metros quadrados especialmente construída na capital paranaense, o que pode facilitar a cobertura. Mas as atividades são muitas e diversas. O parque estará dividido em duas grandes áreas: a Zona Verde (Green Zone), que será aberta ao público, terá debates, painéis e exposições; e a Zona Azul (Blue Zone), espaço restrito da ONU e onde acontecerão as reuniões diplomáticas.
A cobertura exigirá do jornalista, portanto, muito planejamento. Principalmente porque eventos simultâneos sobre o tema ambiental também ocorrerão em Belém, mas fora da área do Parque da Cidade. São as chamadas COPs Paralelas. Entre os movimentos populares que farão parte desse grupo estão a Cúpula dos Povos, a COP das Baixadas e a Igreja Rumo a COP. Não será possível ignorar essas mobilizações.
EIXOS TEMÁTICOS
A COP30 programou uma “Agenda de Ação”, que será o “pilar da Convenção do Clima que mobiliza ações climáticas voluntárias da sociedade civil, empresas, investidores, cidades, estados e países para intensificar a redução das emissões, a adaptação às mudanças do clima e a transição para economias sustentáveis, conforme previsto no Acordo de Paris”, nas palavras da organização.
A “Agenda de Ação” estará distribuída em seis eixos temáticos: 1 – Transição nos setores de energia, indústria e trans- porte; 2 – Gestão sustentável de florestas, oceanos e biodiversidade; 3 – Transformação da agricultura e sistemas ali- mentares; 4 – Construção de resiliência em cidades, infra- estrutura e água; 5 – Promoção do desenvolvimento humano e social; 6 – Transversais: catalisadores e aceleradores, incluindo financiamento, tecnologia e capacitação. Cada eixo possui os seus objetivos específicos (ver tabela, abaixo).

Para a primeira semana estão programados os encontros técnicos. Já a partir da segunda semana, começam as discussões e negociações entre os chefes de Estado. As decisões devem ser consensuais e cada país tem direito a um único voto. O grande objetivo, até o final do evento, é costurar um acordo internacional, o que deve, como sempre, gerar muita polêmica.
Mas não fique preso ao oficial. É muito comum que as narrativas vindas das maiores potências, pouco dispostas a aceitar as mudanças necessárias, sejam vazias, sem validade prática e descompromissadas. Então, uma cobertura baseada nas falas dos povos que sofrem diretamente na pele com a devastação pode ser muito mais verdadeira em contraposição aos tradicionais discursos diplomáticos.
Por fim, não custa lembrar que não existe cobertura de temas ambientais sem engajamento. O jornalismo precisa sempre ficar do lado dos desfavorecidos. Está lá no Código de Ética dos Jornalistas, em seu artigo 6º, inciso XI, é dever do jornalista “defender os direitos do cidadão, contribuindo para a promoção das garantias individuais e coletivas, em especial as das crianças, dos adolescentes, das mulheres, dos idosos, dos negros e das minorias”. O jornalismo precisa ter compromisso com a defesa da vida, da educação, da democracia, da ciência e, mais do que nunca, do meio ambiente. Principalmente agora, quando as mudanças climáticas estão afetando a todos indiscriminadamente. E a enchente de 2024 no RS é uma grande prova disso.

Sérgio Pereira (acima) é jornalista e integrante do grupo de pesquisa Jornalismo Ambiental (Ufrgs/CNPq)

Parque da Cidade (acima) tem uma área de 500 mil metros quadrados e será a sede da COP30. Foto: ALEXANDRE COSTA / AGÊNCIA PARÁ